Roger Ebert dedicou quase cinco décadas defendendo que o cinema era a maior forma de arte do século XX, e sua relação com o gênero fantasia era mais complexa do que a reputação de escapismo sugere. Ele não tinha paciência para espetáculos sem alma e foi notoriamente morno em relação às sequências de O Senhor dos Anéis, dando zero estrelas a vários filmes que buscavam ser blockbusters. No entanto, quando um filme de fantasia conquistava sua total atenção, ele o elogiava com uma generosidade que poucos críticos conseguiam igualar. Os cinco filmes a seguir compõem sua lista de Grandes Filmes, com uma exceção notável, e cada um deles produziu algumas das narrativas de fantasia mais duradouras, que continuam a ser adoradas décadas depois.
Spirited Away É a Obra Mais Cativante de Miyazaki
Ebert chamou Spirited Away de “o melhor filme de animação dos últimos anos” em sua crítica inicial de 2002, conferindo o título de deus da animação a Hayao Miyazaki na mesma resenha, que rendeu ao filme quatro estrelas. Ele ficou tão impressionado com a obra que posteriormente a incluiu em sua série de Grandes Filmes, quebrando sua própria regra não oficial de que dez anos deveriam passar antes que um filme se qualificasse, escrevendo que em sua terceira visualização foi “impactado por uma qualidade entre generosidade e amor.” O enredo não era a parte mais fascinante para Ebert, mas os cantos do quadro onde Miyazaki se preocupou em incluir várias figuras familiares, em vez de deixá-los em branco ou vagos como outros filmes de animação. O fato de o diretor dedicar tempo para realmente desenvolver momentos mais silenciosos, onde os personagens simplesmente sentavam e suspiravam, ou observavam um riacho, conferiu ao filme uma sensação de tempo e lugar, tornando-o um dos melhores filmes de animação de todos os tempos.
O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel Iniciou o Maior Gênero de Fantasia de Todos os Tempos
A crítica de três estrelas de Roger Ebert para O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel é uma das análises mais fascinantemente conflitantes de sua carreira. Ele avaliou positivamente, mas percebeu que a mensagem central se alterou nos filmes, tornando sua crítica um pouco mais melancólica do que o habitual. Ele descreveu o filme como “um épico visualmente poderoso” e o comparou a Lawrence da Arábia em termos de ambição e escala, dando-lhe um polegar para cima em seu programa de TV, enquanto Richard Roeper deu um polegar para baixo. No entanto, o filme não pôde ser plenamente apreciado, pois transformou a estrutura dos livros, que falavam “sobre criaturas pequenas e corajosas que recrutam homens poderosos e magos para ajudá-los”, em uma narrativa onde os homens poderosos e os magos eram o foco, em vez dos Hobbits. Ele sentiu que Peter Jackson havia transformado a visão ingênua e inocente de Tolkien em um épico de espada e feitiçaria, moldado mais pela gramática visual de Matrix e Gladiador do que por sua própria fonte. Mesmo assim, o filme permanece um dos recursos de fantasia mais icônicos de uma trilogia ainda mais impressionante de todos os tempos.
O Mágico de Oz É o Melhor Filme de Fantasia para Crianças
O ensaio de Roger Ebert sobre O Mágico de Oz é importante porque enumera as razões pelas quais o filme funciona não como uma armadilha nostálgica, mas como um mapa da psicologia infantil. Ele afirmou: “Os elementos em O Mágico de Oz preenchem de forma poderosa um vazio que existe dentro de muitas crianças. Para crianças de certa idade, o lar é tudo, o centro do mundo. Mas além do arco-íris, vagamente adivinhado, está a vasta terra, fascinante e aterrorizante.” Ebert interpretou o final sentimental do filme como algo muito mais irônico do que doce, já que Dorothy não tem outro lugar para ir além de casa. Ele observou que o filme se destacava na maioria dos aspectos, incluindo comédia, música, efeitos especiais e emoção, mas insistiu que sua durabilidade vinha da representação das inseguranças mais profundas da infância e da exploração completa delas.
O Labirinto do Fauno Recebeu Quatro Estrelas de Ebert
O crítico de cinema nomeou O Labirinto do Fauno como o melhor filme de 2006 e também o chamou de obra-prima quando o assistiu em Cannes, optando por ignorar novamente a regra de dez anos e adicioná-lo imediatamente à lista de Grandes Filmes. Sua justificativa foi a maneira como Guillermo del Toro entrelaçou dois tipos diferentes de material na história, mantendo-se fiel a ambos os mundos simultaneamente. Ele também destacou a dimensão política em O Labirinto do Fauno, observando que del Toro afirmou que todo o filme é sobre escolhas, e que Ofélia é “uma garota que precisa desobedecer a tudo, exceto à sua própria alma”, o que Ebert interpretou como o argumento anti-fascista do filme expresso de forma simples. Ele também fez questão de ressaltar um ponto factual que a maioria dos espectadores confundiu: “Alguns espectadores confundiram o fauno com Pã”, observou, “mas não há Pã na obra.”
O Ladrão de Bagdá Resiste 80 Anos Desde Seu Lançamento
O Ladrão de Bagdá também fez parte da lista de Grandes Filmes, e seu ensaio foi intitulado “Uma das Fantasias Mais Deliciosas Já Filmadas”, deixando claro quais eram os pensamentos de Roger Ebert sobre a obra. Ele explicitamente a colocou em um nível semelhante ao de O Mágico de Oz, chamando-a de “um dos grandes entretenimentos” que “eleva o coração”. Ebert argumentou que, apesar de ter seis diretores, dos quais apenas três foram creditados, parece ser “a obra de uma única visão.” Ele elogiou Sabu e Conrad Veidt, que interpretaram o astuto ladrão Abu e o maligno mago Jafar, mas disse que a química entre os protagonistas românticos do filme era insípida. Ebert, em particular, apreciou os efeitos especiais de O Ladrão de Bagdá, e até mesmo o considerou um padrão para futuros filmes utilizarem efeitos para servir e aprofundar a história, em vez de sobrecarregá-la. O filme mantém 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Para mais notícias acesse Central Nerdverse. Confira também outros conteúdos em Em Foco Hoje.


